Búzios/RJ

Franck Gerard

Escrito por Gabriel Galo

Larguei tudo na Europa e vim para o Brasil para casar. Separei. Conheci minha namorada atual aqui em Búzios, quem nos apresentou foi a minha ex-mulher.

 

Búzios, Rio de Janeiro

(internet, Taverne67)

Abril/2017

Atenção que a história que aqui será contada se assemelha a um conto de fadas. Daquelas com príncipe encantado, paixões avassaladoras, princesa que encontra o amor. E um toque de adaptação criativa, porque o final feliz não é exatamente o dos livros.

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O Taverne 67 é dos restaurantes mais bem recomendados de Búzios no TripAdvisor. Era ali aonde iríamos na nossa primeira noite, que teve um pit stop num café pouco antes de chegarmos. Era segunda-feira, e depois de 3 fins-de-semana prolongados, a cidade estava vazia. O restaurante também. O cardápio, culinária francesa adaptada, era muito agradável de navegar. Fomos de risoto.

Pouco tempo depois, Franck veio à mesa, saber como estava o prato. O papo que seria pro forma, “muito bom, obrigado”, vira uma conversa de mais de uma hora. Francês, de uma cidade que nem arriscou dizer o nome, sabedor da minha incapacidade de compreender, mas que informou ser na Alsácia, ele conta sua história com o Brasil, de 1998 até aquela segunda à noite de abril de 2017.

– Eu trabalhava na Mercedes Benz. Fui alocado para fazer parte da fábrica de Juiz de Fora, por causa do Classe A. Durante um bom tempo, vivia indo e vindo. Nas férias, todo ano, eu vinha para Búzios. Eu adoro esse lugar. Mesmo depois que voltei para morar na Europa, vinha para cá todo ano. Minha ex-mulher é brasileira, lá de Juiz de Fora. A gente se conheceu lá, nessas viagens pela Mercedes. Casamos na França, tivemos um filho lá. Inclusive vamos mês que vem para lá, férias com a minha família.

Aí é que a história toma um rumo inesperado.

– Você vê seu filho frequentemente? – pergunto.

– Claro. Todo dia. Minha ex-mulher mora aqui em Cabo Frio. A gente é sócio aqui no restaurante.

– E como é esse relacionamento?

Ele sorri.

– Normal. Cada dia um toma conta. Hoje eu estou aqui, amanhã ela vem, e eu fico com meu filho. Somos grandes amigos. Inclusive, hoje sou casado com uma das melhores amigas dela.

Normal? Como assim, normal? Esta, definitivamente, não é a norma. Confesso que fiquei bastante incrédulo.

– Como é que foi isso?

– Eu acabei conhecendo a minha namorada aqui em Búzios. Aliás, quem nos apresentou foi a minha ex-mulher. Ela foi nosso cupido. A gente tem um relacionamento super bem resolvido. Somos muito amigos, temos um filho.

Ainda haverá mais dessa história. Segura aí.

O movimento era lento. Além da nossa mesa, apenas mais uma. Depois outra, bastante ociosidade. Pergunto como andavam os negócios em tempos de movimento baixo.

– Faz 2 anos que não está bom. Tenho as mesmas dificuldades que todo mundo tem. Garçons que consigam vender bem, por exemplo. Cozinheiro também é muito difícil de achar. O ideal é manter quem já está na casa. Trabalho junto com meus funcionários, alguns estão comigo desde o início, é como conseguimos manter a mesma qualidade, tanto na cozinha tanto no atendimento. Todas as receitas eu testo, explico como faz. Às vezes é complicado achar bons ingredientes, por exemplo. Achei um fornecedor de queijo bom no Rio Grande do Sul, vou comprar dele, porque o que vende aqui não é nada bom. Nem posso reclamar tanto, esses três feriados seguidos deu uma animada boa no movimento, mas tem sido um desafio ficar aberto. A crise pegou pesado. E pensar que tudo poderia ser diferente… Qualquer imóvel aqui em Búzios custa uma fortuna. O aluguel é caríssimo. Quando eu vim para cá em definitivo, saindo da França e da Mercedes, já queria comprar um imóvel aqui, para abrir um restaurante mesmo. Eu não tinha o dinheiro todo, pedi um empréstimo num banco, mas foi recusado. Hoje, se tivesse sido aprovado, eu estaria aposentado, só vivendo do aluguel. Mas, águas passadas. O negócio é correr atrás.

– E se este ano for ruim também?

– Não posso pensar nisso. Não tenho essa opção.

Nos despedimos, mas, desatento que sou, esqueci de bater uma foto com nosso anfitrião.

Voltamos no dia seguinte.

Volta o conto de fadas.

Na entrada do restaurante, uma simpática senhora nos convida a jantar ali.

– Já jantamos aqui ontem! O Franck está?

– Não, o Franck não vem hoje. – responde ela.

Minha mulher, então, me cutuca. “Será que ela é a ex-mulher dele?” Caramba, claro!

– Você é a ex-mulher dele?

– Ele contou isso pra vocês, é? – E ri largamente.

– Contou muito mais! Até que hoje é namorado de uma de suas melhores amigas.

Ela ri ainda mais.

– A gente acabou virando muito amigo, sabe? Inclusive de ir no cinema todo mundo junto. Não temos mais nada, mas o carinho é grande. E a nossa história foi meio conto de fadas, sabe? Eu lá, estudante em Juiz de Fora. De repente aquele francês lindo, alto, e a gente começa a sair, a namorar. Era inacreditável, todo mundo na cidade queria o Franck! Quando ele foi avisado que ia voltar para a França, foi ainda mais maluco, porque ele me pediu em casamento, me levou para morar com ele na Europa. Foi demais, sabe? Eu vivi um conto de fadas, uma paixão arrebatadora, um amor incrível. Tivemos um filho, que é francês, mora aqui com a gente. Mesmo hoje estamos separados, sabemos de quanto a nossa história é bonita. E fiquei muito feliz quando minha amiga começou a namorar com ele! Hoje eles são casados. O engraçado é que eu tenho ainda o sobrenome dele. Mudar o nome é trabalho demais, ia ter que fazer documento na França para mudar tudo, uma complicação pela qual não quis passar. Depois, quando vêem que temos o mesmo sobrenome, acham que somos irmãos! Até contar a história toda, é um barato ver a reação das pessoas…

E gargalha.

Talvez, realmente, sejam irmãos, à sua maneira.

O dever a convoca de volta ao salão. Ela nos avisa que vai avisar ao Franck que voltamos.

E, uma vez mais, esqueço de bater uma foto, desta vez com ela.

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Cada vez que eu revisito esta história, me sinto genuinamente feliz. Porque, realmente, é um conto de fadas com final improvável. Mais do que isso, envolve gente que valoriza e reconhece sua história. Sabe o quanto ela é importante. O quanto ela é valiosa. Não apagam o passado, pelo contrário, nutrem com carinho algo que jamais poderá ser varrido para debaixo do tapete. Que não aceitam que isso aconteça. Que vivem como companheiros eternos, ligados pelo filho e por uma relação que ali seria digna de um enredo da Disney, além do restaurante.

São gente da melhor qualidade.

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No Facebook, há a informação de onde Franck nasceu. Niederschaeffolsheim. Eu jamais conseguiria entender, realmente. Ele falaria e eu responderia “Saúde”. Ia ficar feio pro meu lado.

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#todostemumahistoria

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Conteúdo publicado originalmente no Papo de Galo.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Gabriel Galo é baiano de Salvador e já morou em lugares demais nesse mundo. Desde pequeno fez-se torcedor do Vitória.

Formado em Administração pela FEA/USP, fez carreira em consultorias e no mercado financeiro. Desde 2008 é empresário com diversas start-ups lançadas e lidera equipe em sua própria consultoria de gestão.

Descobriu nas palavras uma paixão arrebatadora. Dedica-se a escrever diariamente contos, crônicas e ensaios. É colunista do Correio, jornal de maior circulação da Bahia, e do HuffPost Brasil.

Pai do Alexandre e da Isabela, convive com a saudade por vê-los longe. No seu trabalho como esceitor, busca sempre o olhar para o humano e acredita que todos têm uma história que vale a pena ser contada.

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